FOLHAPRESS – Quando Cecília Meireles iniciou a divulgação da poesia de Fernando Pessoa no Brasil com o volume ‘Poetas novos de Portugal’ (1944), lá se iam já duas décadas do “segundo Grito do Ipiranga”, como se quis a Semana de Arte Moderna de 1922.
Mário de Andrade havia feito seu balanço entristecido (1942) das conquistas daqueles anos e logo estaria morto.
Apesar da influência que os romances brasileiros de 1930 teriam sobre o neorrealismo português, e, por contrapartida, da importância entre nós de escritores exilados do regime de Salazar -como Jaime Cortesão e Jorge de Sena, as relações entre as literaturas brasileira e portuguesa continuariam minguantes.
Poderíamos argumentar aí uma vitória da Semana de 22 em seu pleito por independência. Mas perdemos com isso uma relação mais próxima a poetas como Mário Cesariny e Al Berto, ainda desconhecidos no país. As influências seguiriam entre autores, como João Cabral de Melo Neto sobre Antônio Ramos Rosa ou Almeida Faria sobre Raduan Nassar.
Mas se nossa importação aumentou na década de 1990 com José Saramago na prosa e Herberto Helder na poesia, a alfândega continuou razoavelmente protecionista.
As redes sociais mudaram isso em grande medida. Poetas dos dois lados do Atlântico hoje seguem com mais facilidade os trabalhos uns dos outros. Mas o mundo editorial não tem como acompanhar esse fluxo.
É por isso que a publicação de um poeta como Manuel António Pina (1943-2012) no Brasil deve ser celebrada. Ganhador do Prêmio Camões em 2011, sua chegada tardia ao maior país de língua portuguesa talvez seja indício de mudanças necessárias ao estatuto do prêmio.
Não deveria ser automática a edição dos autores em todos os países lusófonos? Ainda há tempo para lermos ao menos os nossos próprios poetas premiados, como o excelente Alberto da Costa e Silva.
Há tempo? Ao abrir a antologia de Manuel António Pina, topamos já com uma das páginas mais bonitas da seleção e na qual não há poema, apenas o título de seu primeiro livro, que é sim poema e indício de sua poética: “Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas um Pouco Tarde”.
Era abril de 1974, mês e ano da Revolução dos Cravos, como aponta o organizador Leonardo Gandolfi na introdução. Ele acrescenta, citando Pina, que isso “se faz presente na simples e perturbadora constatação que é, de uma só vez, saturação de uma época e abertura para outra: ‘Já não é possível dizer mais nada/ mas também não é possível ficar calado’.” 
E Pina não ficaria calado. Até sua morte em 2012, seriam dezenas de coletâneas de poemas, crônicas e livros infantis, gêneros nos quais iniciara sua produção. Mas seus poemas todos demonstram sua suspeita dessa impossibilidade de falar e de calar, a sensação de ter simplesmente chegado “um pouco tarde”.
Ele não insinua porém motivos para não buscar algo além das falhas: “Tudo o que sonho ou passo,/ O que me falha ou finda,/ É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda./ Essa coisa que é linda”.
E o primeiro verso de toda a antologia diz: “Os tempos não vão bons para nós, os mortos.”
Escrito ainda em tempos salazarianos, não creio que o verso lamente apenas o momento de sua escrita, pois em Pina talvez perpasse aquele terror profético de que falaria Walter Benjamin: “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.”
Contudo, o poeta sabe de nossos colaboracionismos covardes, e escreve no poema “Aos filhos”: “Já nada nos pertence, / nem a nossa miséria. / O que vos deixaremos / a vós o roubaremos.”
A centelha de esperança em Manuel António Pina parece estar no presente, no momento vivido de forma brilhante em meio a um mundo baço. Nesse aspecto, eu creio que sua poesia possa sintonizar-se à sensibilidade do leitor brasileiro que aprecie os poetas que cantam o cotidiano.
Suas experiências estão fincadas na língua, mas há aí um filtro suspeito. Há um poema que aponta para esta desconfiança, dedicado ao Ludwig Wittgenstein que escreveu no seu ‘Caderno Azul’ uma de suas proposições enigmáticas mas cheias de implicações: “não podemos ter (em regra não temos) dores nos dentes de outra pessoa.”
Em sua homangem ao austríaco, Pina diz: “As palavras não chegam, /a palavra ‘azul’ não chega, /a palavra ‘dor’ não chega. /Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem que palavras?”
Seu refúgio será na poesia, à qual apela: “Palavras não me faltam (quem diria o quê?), /faltas-me tu poesia cheia de truques”. Uma nostalgia dos tempos da magia, ainda que seja o truque de um mágico de circo.
Retornamos aqui a Fernando Pessoa. Há críticos que teceram paralelos entre certa “impessoalidade” nos dois portugueses. Em Pessoa, essa impessoalidade se manifesta através da multiplicação prismática do eu. Em Pina, a desconfiança na linguagem o leva a murmurar seu fado, por vezes, à beira do abismo do solipsismo.
Creio que o poeta estava ciente disso, o que torna ainda mais tocante sua poesia ressabiada, e Pina é importante para compreender muito da poesia portuguesa contemporânea, na qual o desencanto é força organizadora do mundo. Por lá parecem por fim ter abandonado qualquer sebastianismo.
Se nos distinguimos deles nesse barômetro do desencanto, é porque talvez ainda nutramos ilusões de grandeza futura.
A Editora 34, com Cide Piquet à frente da editoria de poesia, tem encampado uma poética específica para o cenário nacional, se pensarmos nas publicações recentes de poetas estrangeiros: Raymond Carver, Bertolt Brecht, Nicanor Parra e Manuel António Pina. Não são escolhas aleatórias.
Talvez haja aí um desejo de manter viva no país a atenção a certa poesia mais ao rés-do-chão após a guinada lírica, e por vezes altissonante, dos últimos anos.

O CORAÇÃO PRONTO PARA O ROUBO – POEMAS ESCOLHIDOS
AUTOR Manuel António Pina
EDITORA 34
PREÇO R$ 45,00 (160 págs.)
AVALIAÇÃO Muito bom