SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Pela primeira vez na história, a Copa Libertadores da América será decidida em jogo único. No dia 23 de novembro deste ano, o Estádio Nacional de Santiago será o palco da partida que escreverá mais uma importante página na história do futebol sul-americano.
Só que uma das primeiras páginas da história do próprio estádio foi escrita com a ajuda de um clube brasileiro, e em um cenário inimaginável em 2019. Afinal, na inauguração do maior estádio do Chile, o São Cristóvão (RJ) estava lá para desafiar o Colo-Colo em um amistoso.
A partida em questão fez parte da segunda excursão internacional da história do São Cristóvão. Segundo o livro Chuva de glórias: a trajetória do São Cristóvão de Futebol e Regatas, de Raymundo Quadros, a primeira havia acontecido um ano antes, com partidas no Peru, na Bolívia e no Uruguai, e um saldo pouco animador: em dez jogos, duas vitórias, um empate e sete derrotas. “Um desastre total”, classificou o próprio Raymundo.
A segunda excursão teria amistosos na Argentina e no Chile. Assim, no dia 29 de novembro de 1938, a delegação do São Cristóvão, que contava com 13 jogadores, desembarcou em Buenos Aires. De lá, partiu para Rosário, onde enfrentou o Rosario Central e perdeu por 4 a 2 já no dia 30 de novembro.
RECEPÇÃO FESTIVA NO CHILE
Passada a estreia, os comandados do técnico Ademar Pimenta viajaram a Santiago para o jogo, marcado para 4 de dezembro. Também na capital chilena, o time carioca enfrentaria o Audax Italiano e o Magallanes. Entre os chilenos, a expectativa pela partida de inauguração do estádio também era grande – não por acaso, o relato da agência United Press publicado em 6 de dezembro de 1938 pelo Jornal do Brasil fala em 50 mil pessoas presentes, “a maior assistência até hoje registrada em um jogo de futebol no Chile”.
O cerimonial anterior ao jogo foi marcado por momentos de cordialidade. Ao entrar no gramado, o time do Colo-Colo trouxe junto uma delegação de 300 sócios, que levavam nas mãos bandeirinhas do Chile e do Brasil. O São Cristóvão entrou logo depois. As duas equipes foram recebidas com entusiasmados aplausos do público.
Em seguida, os hinos nacionais de Chile e Brasil foram executados. Por volta das 17h35, a bola rolou para Colo-Colo x São Cristóvão. E a gentileza com os brasileiros acabou. O time da casa dominou amplamente a primeira metade do jogo, graças a Manuel e Carlos Arancibia. Embora matéria da United Press na época tenha registrado os irmãos como Arancibia e Arancibia II, sem diferenciá-los, incluiu ambos nos dois primeiros gols da partida.
Aos 7 minutos, Arancibia abriu o placar; mais tarde, aos 20 minutos, “os irmãos Arancibia, em bela combinação, burlaram a vigilância do arqueiro brasileiro e conquistaram o segundo goal do Colo-Colo”. O goleiro citado era Madalena. Tomás Rojas fez 3 a 0 aos 25 minutos e o 4 a 0 aos 40. No intervalo, o placar colocava as duas equipes em situações bem distintas.
O São Cristóvão do primeiro tempo esteve “irreconhecível”, “completamente desorientado” e “sem nenhuma coesão”, segundo o relato da época; já o Colo-Colo “exibiu um jogo de combinação metódica, parecendo uma verdadeira máquina em funcionamento”.
Mas os cariocas resolveram reagir no segundo tempo. Aos 10 minutos, Roberto alçou a bola, e Caxambu – destaque do time – marcou de cabeça. Mais tarde, aos 15, Nestor se aproveitou de uma saída errada do goleiro Simian para fazer o segundo. De quebra, dois minutos depois, Roberto marcou o terceiro.
A reação, porém, parou por aí. Aos 35 minutos, Sorrel passou e Arancibia bateu para fazer 5 a 3. Depois, Toro aproveitou a cabeçada do mesmo Sorrel e marcou o 6 a 3, dando números finais ao jogo. Com a vitória assegurada, a torcida chilena fez festa, aplaudindo os dois times tão logo o apito final soou.
Naquele jogo, o Colo-Colo atuou com Simian; Elios, Carmona, Medina, Nocetti, Monteiro, Rojas, Arancibia, Toro, Sorrel e Arancibia II. O São Cristóvão jogou com Madalena; Hernandez, Oswaldo, Picabeia, Dodô, Afonso, Roberto, Vilegas, Caxambu, Nestor e Carreiro. Na sequência da excursão, o time brasileiro enfrentou o Audax Italiano em 8 de dezembro (empate por 3 a 3) e o Magallanes no dia 11 (vitória por 7 a 2).
Na volta à Argentina, embora a imprensa tenha noticiado a possibilidade de um amistoso com o Boca Juniors em 14 de dezembro, o São Cristóvão acabou enfrentando o Racing no dia 15 – e perdeu por 8 a 0.
LEMBRANÇA NA PAREDE
Hoje, embora seja difícil precisar a importância da excursão para a história do São Cristóvão, Raymundo Quadros lembra que, naquele mesmo ano, o clube teve dois jogadores na seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo: o meio-campista Afonsinho e o atacante Roberto. “Era um sinal de que o clube estava bem”, analisa. O técnico Ademar Pimenta também comandou o Brasil no Mundial de 1938. E mesmo passadas mais de oito décadas da partida, a lembrança é motivo de orgulho no São Cristóvão. “Isso aí entrou para a história do clube, uma história positiva. O São Cristóvão foi convidado para fazer a inauguração do estádio”, diz Renato Campos, gerente administrativo da equipe, atualmente na Série B-2 do Campeonato Carioca.
Aos 58 anos, ele conta que sua ligação com o time nasceu antes mesmo de nascer – a mãe era lavadeira do São Cristóvão e ia trabalhar ainda grávida. Na sede do clube, há inclusive um quadro com uma imagem daquele jogo, que Renato faz questão de mostrar aos visitantes.
“As pessoas que convivem há mais tempo e sabem da história contam isso. Toda visita que vem de estrangeiro ao clube, de imprensa estrangeira, eu mostro o quadro. O São Cristóvão é mundialmente conhecido. E a gente conta um pouco da história”, diz Renato Campos.
“Espero que o São Cristóvão venha a ser lembrado, e que as pessoas que gostam do futebol procurem mais não só o São Cristóvão, para valorizar o passado, de onde surgiu o futebol, os verdadeiros craques”, completa.