SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Até que ponto uma treinadora de circo é capaz de trespassar os limites de sua própria espécie para habitar o corpo do animal que ela adestra e vivenciar uma outra subjetividade que não a humana? Em que medida uma ursa polar, em intrínseca relação com os humanos, pode escrever um relato pessoal sobre sua vivência com eles e ter um ponto de vista sobre o mundo e a humanidade? O que os animais aprisionados em circos e zoológicos podem nos dizer sobre as relações de controle que constituem nossa sociedade, e vice-versa?
Com seu olhar multifacetado de escritora japonesa radicada na Alemanha, que escreve em duas línguas (às vezes simultaneamente) e cultiva uma forte ligação com a literatura russa, Yoko Tawada, em seu magnífico “Memórias de Um Urso Polar”, não responde necessariamente a essas questões, embora nos conte muito mais do que sabe sobre elas ao desdobrá-las em outras não menos instigantes e perturbadoras.
Seu ponto de partida é a história real do urso polar Knut, que, rejeitado pela mãe ao nascer, é criado por humanos no Zoológico de Berlim, tornando-se uma celebridade mundial. Antes, porém, de se deter nessa história comovente, a escritora traz à tona, nas duas primeiras partes do livro, as (auto) biografias da avó e da mãe do urso abandonado, que também viveram em espaços de confinamento e mantiveram complexas relações com a nossa e outras espécies animais.
Para tanto, a autora entrelaça engenhosamente diferentes vozes humanas e não humanas, criando um jogo entre primeira e terceira pessoas narrativas, de modo a “traduzir” em palavras o que imagina se passar na esfera íntima dos animais, ao mesmo tempo em que reavalia os conceitos cristalizados de humanidade e de humanismo.
Como se não bastasse, ainda revisita, por vias irônicas e com certo humor desconcertante, alguns momentos emblemáticos da história política mundial, com ênfase nos conflitos e consequências da Guerra Fria, nas práticas institucionalizadas de controle social, nas contradições dos movimentos que defendem os direitos humanos e os dos animais, bem como nos efeitos perniciosos do aquecimento climático para o futuro do planeta.
Ao transitar entre o real e o absurdo para abordar os contágios recíprocos entre distintos mundos, Tawada reinventa Kafka com a legitimidade de uma escritora que escreve numa língua contaminada por outra e, por isso, sustenta sua própria estranheza. Como o escritor tcheco alemão, mas sob um outro enfoque, retoma as antigas fábulas a partir de uma nova consciência dos limites/liames entre as espécies e faz do antropocentrismo uma intrigante via de acesso à animalidade que nos habita. 
Assim, “Memórias de Um Urso Polar”, belamente traduzido ao português numa edição da Todavia, vem desestabilizar a própria noção de fronteira, sem deixar também de refletir sobre os desafios de quem se entrega ao ofício de escrever no mundo contemporâneo. Não à toa, circos, zoológicos, palcos, congressos acadêmicos e editoras também se confundem no livro. Ursos e escritores, também. Afinal, como diz Tawada, “o escrever não se diferencia tanto da hibernação”. Imperdível.
 Maria Esther Maciel, escritora e professora colaboradora de Teoria Literária da UNICAMP, publicou, entre vários outros livros, Literatura e animalidade (Civilização Brasileira).

MEMÓRIAS DE UM URSO-POLAR
Preço: R$ 64,90 (272 págs.)
Autor: Yoko Tawada
Editora: Todavia
Classificação: Ótimo