BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) – Chamada de “fomento ao preconceito e à discriminação” pela Arquidiocese de Belo Horizonte, e de “blasfêmia” em uma abaixo-assinado com mais de 23 mil assinaturas, a peça “Coroação de Nossa Senhora das Travestis” foi retirada da programação da Virada Cultural da cidade por decisão do prefeito Alexandre Kalil (PSD). 
O anúncio foi feito no Twitter oficial de Kalil, onde ele tem 1,2 milhão de seguidores, nesta sexta-feira (19). “Defendo todas as liberdades. Sou católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Fiquem tranquilos, ninguém vai agredir a religião de ninguém. Isso não é cultura”, escreveu ele. 
A performance do coletivo Academia Transliterária estava prevista para acontecer neste sábado (20), às 20h. O grupo diz que ficou sabendo da decisão pelas redes sociais, sem contato prévio. Tentaram uma reunião com a Secretaria Municipal de Cultura para tentar revertê-la, mas o encontro não mudou a posição oficial. 
Em nota, a produção da Virada Cultural diz que não teve intenção de ferir a crença religiosa de qualquer grupo e preza pela pluralidade, mas optou pela suspensão da apresentação “na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida”. 
A ideia da performance, que o grupo chama de “atraque literário”, surgiu durante uma preparação de rotina. Uma das integrantes, Nickary Aycker, se enrolou na bandeira trans e colocou uma coroa de flores na cabeça. “Parecia uma entidade sagrada”, diz uma nota do coletivo, “a partir dessa visão em todo o seu brilho, vimos uma espécie de culto a todas as travestis”. 
Realizada há dois anos, a performance já passou por vários festivais. Durante 60 minutos, o grupo faz um cortejo, interage com o público e termina na coroação de uma das sete travestis que compõe o elenco. A cada apresentação, uma atriz diferente recebe a coroa. 
“A coroação é da nossa senhora, não quer dizer que seja a Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo. Não é isso. A gente não trata de religião, não discute sobre isso e nem tem intenção de ofender religião nenhuma, porque não é nosso foco de trabalho. A nossa perfomance é para celebrar a vida das pessoas trans”, explica João Maria Kaysen, 28, produtor geral. 
A nota da Arquidiocese de Belo Horizonte, assinada pelo arcebispo Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), pede a suspensão do evento e convoca todos os católicos a se manifestarem “exigindo respeito”. A nota também chama a performance de “ato abominável contra a fé cristã católica”. 
“Exigimos e esperamos que as autoridades competentes e os organizadores suspendam este evento, por ser incontestável fomento ao preconceito e à discriminação, desrespeito aos valores da fé cristã católica, devendo saber que estão comprometendo, gravemente, a paz e o exigido relacionamento cidadão respeitoso”, diz o texto. 
O abaixo-assinado contra a realização do evento foi criado pelo perfil Instituto São Pedro de Alcântara. Na mesma página, em novembro do ano passado, o mesmo perfil havia criado uma petição direcionada a Dom Walmor, “Pelo fim da promoção da ideologia de gênero na Arquidiocese de Belo Horizonte”. O objetivo seria marcar posição contra a “promoção do gayzismo na igreja”. 
Em setembro de 2017, logo após a censura à exposição Queermuseu, em Porto Alegre, uma decisão judicial cancelou a apresentação da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que aconteceria no Sesc Jundiaí. A peça recria a história de Jesus como uma transexual. 
“A gente não está mais discutindo somente cultura, a gente está falando de política, é o cenário atual. A gente não se surpreende, mas também não vai baixar [a cabeça] e vai continuar trabalhando”, diz João Maria. 
Ele conta que a Academia Transliterária, criada há três anos, além do trabalho artístico, já ajudou pessoas em situação de rua e com problemas de dependência química. “Não tem nada de errado com o nosso trabalho, a leitura que está equivocada. Estamos tranquilos, tranquilas, tranquiles”.