SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “A mulher é volúvel/ como pluma ao vento/ muda de palavra e de pensamento.” 
Esses versos nada lisonjeiros sobre a natureza feminina são o refrão de uma das árias mais famosas de todo o repertório operístico. “La Donna È Mobile” está no terceiro ato de “Rigoletto”, popularíssima ópera de Giuseppe Verdi que estreia nesse sábado no Theatro Municipal de São Paulo.
“Rigoletto” estreou no Teatro La Fenice, em Veneza, em 1851. Cinco anos depois, já era montada no Rio de Janeiro por uma companhia estrangeira. Em São Paulo, a estreia foi em 1876, e a obra foi levada ao palco 23 vezes até 1911, quando foi o título escolhido para inaugurar o Municipal, com a companhia do célebre barítono italiano Titta Ruffo.
Foi também a ópera selecionada para a comemoração do centenário da casa, em setembro de 2011, em montagem dirigida por Felipe Hirsch que dividiu opiniões. Só no Municipal paulista, Rigoletto foi levada à cena em 41 temporadas.
O enredo gira em torno da vida libertina do duque de Mântua, que conta com a cumplicidade de seu bufão Rigoletto, corcunda de língua afiada e sem escrúpulos. Esse, por sua vez, mantém escondida em casa sua única filha, Gilda, vítima de uma trama macabra. A obra é repleta de outras árias célebres, como “Questa o Quella”, “Caro Nome” ou o quarteto “Bella Figlia dell’Amore”.
Com direção musical e regência de Roberto Minczuk e direção cênica de Jorge Takla, a montagem atual alterna cantores nos papeis principais.
Os barítonos Fabián Veloz, argentino, e o brasileiro Rodrigo Esteves revezam-se como Rigoletto, enquanto o veterano tenor Fernando Portari e o também argentino Darío Schmunck interpretam o duque de Mântua. 
Como Gilda, se revezam a jovem soprano russa Olga Pudova e a brasileira Carla Cottini.
Assédio, vingança, maldição e poder –temas atemporais se misturam nesta que é uma das grandes obras verdianas. “Rigoletto” integra a trilogia romântica de Verdi, ao lado de “La Traviata” e “Il Trovatore”, óperas em que “personagens complexos e perversos buscam explorar aspectos da condição humana”, 
nas palavras de Jorge Takla.
Ele ainda destaca um tema encarado com naturalidade à época, mas que hoje é foco de discussão.
“[Rigoletto] é uma pessoa que tem uma deformidade física e que por isso só serve como motivo de chacota, como um bufão que se sair desse cargo humilhante não terá trabalho nem inclusão.” E é “um personagem complexo que incentiva a corrupção, o assédio e que pratica cárcere privado com a filha”.
Minczuk explica como o compositor transporta para a partitura as emoções envolvidas. “Verdi trabalha com contrastes e sutilezas. Momentos extremamente dramáticos contrastam com outros leves, jocosos.
Às vezes, a doçura de Gilda é representada pelas flautas, pelas cordas na região aguda. É uma obra dramática, mas flui com leveza.”
Takla afirma que não procurou trazer a encenação para os dias de hoje porque “seria uma coisa muito óbvia”. “Até porque acho que o tema principal é o amor paterno, imenso, que norteia todos os atos desse personagem perverso.”
Minczuk concorda. “O relacionamento de pai com filha é uma coisa única. Independente do caráter de Rigoletto, temos um ser humano que ama incondicionalmente a filha como qualquer pai.”
Por causa da troca de direção e das ameaças de rompimento de contrato com o Instituto Odeon, foi só agora que o Municipal anunciou as demais atrações do ano.
A temporada lírica terá mais dois títulos: “Prism”, ópera contemporânea de Ellen Reid vencedora do prêmio Pulitzer de música em 2019, e “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár, com direção de Miguel Falabella.

Rigoletto
Theatro Municipal de São Paulo, pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. (11) 3053-2100. Sáb., ter. e qua., às 20h. Dom., às 18h. Até 30/7. De R$ 20 a R$ 120.