FOLHAPRESS – Espinosa voltou. Fazia um tempinho que andava sumido: cinco anos, desde a publicação de “Um Lugar Perigoso”. Mas aqui está ele, tomando um rápido café da manhã e descendo os três lances de escada que separam seu apartamento da pracinha no bairro Peixoto, enclave quase medieval no coração de Copacabana. O delegado titular da 12ª DP tem mais um caso a investigar, envolvendo prostituição, mortes por enforcamento, segredos inconfessáveis.
Com “A Última Mulher”, a saga de Espinosa chega ao 11º título flertando com a “pulp fiction”. Um romance curto (pouco mais de 100 páginas), pleno de diálogos e ação trepidante, ambientes sórdidos, personagens chamados Ratto e Japa. Menos tensão psicológica, mais adrenalina.
O primeiro deleite é o reencontro. Tão ou mais importante que o crime a ser desvendado, conta para a atmosfera do romance policial que o leitor fiel saiba como vai a vida do detetive com quem simpatizara de outros assassinatos. (Será que Philip Marlowe segue cobrando 25 dólares por dia, mais despesas?)
Espinosa continua mais ou menos o mesmo. Passa no árabe na Galeria Menescal para se abastecer de quibe e esfirra, mantém firme o relacionamento amoroso com a arquiteta Irene, o fiel escudeiro ainda é o inspetor Welber. Sua atuação de cana-dura honra o nome. A obra mais conhecida de Spinoza, seu xará filósofo, é um tratado sobre a ética.
Por mais dissociada à realidade, essa característica torna crível o protagonista de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Atuando num meio reconhecidamente corrupto, Espinosa é de uma integridade absoluta, em nenhum momento cede às pressões da profissão. Na nova aventura, terá de enfrentar um policial ladrão e proxeneta.
No delírio persecutório pelas ruas de Copacabana e da Lapa profunda, “A Última Mulher” lembra “Perseguido”, umas das melhores novelas do autor, na qual, por trás da trama, persiste a pergunta: o que é real e o que é fantasia? Outra baliza é “Na Multidão”, em que a influência de Edgar Allan Poe fica clara.
Para Poe, a narrativa policial tanto podia funcionar como um problema a ser resolvido quanto um enigma a ser decifrado – equações que podem parecer semelhantes, mas não são. Garcia-Roza leva a cabo a segunda maneira, indo à procura da verdade oculta nas ações humanas, e não apenas a da mão criminosa que aperta a garganta. A isso, soma o recurso do suspense, valendo-se das lições de outro mestre, este menos badalado: Cornell Woolrich.
Acima está escrito que Espinosa continua “mais ou menos” o mesmo. Explica-se: o personagem não é a-histórico. Assim como a cidade a sua volta vai mudando, ele também. A certa altura do novo livro, toma consciência de que “era outro mundo, aquele, com outras pessoas e outros policiais. Sentia-se como parte de uma velha escola que forjava homens e mulheres desgastados em nome do que parecia ser o bem comum”.
A arte de Garcia-Roza o transformou no maior escritor de romances policiais do Brasil. Mas vai além: numa época em que o gênero parecia esgotado, servindo a experiências formais, paródias e pastiches, ele lhe devolveu a grandeza, tratando-o como deve ser: a sério. Vida longa a Espinosa e a Luiz Alfredo.

A ÚLTIMA MULHER
AUTOR Luiz Alfredo Garcia-Roza
EDITORA Companhia das Letras
PREÇO R$ 39,90 (120 págs)
AVALIAÇÃO Muito Bom