SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O ambiente acadêmico brasileiro é muito voltado para a produção de artigos científicos e ainda existem dificuldades de inserção de professores universitários em projetos de desenvolvimento tecnológico em empresas. Mas há avanços.
Essa é a avaliação de Mauro Kern, vice-presidente de integração de tecnologia da Embraer. Ele é também um dos membros da MEI (Mobilização Empresarial pela Inovação), fórum formado por líderes de mais de 200 indústrias de grande porte coordenado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria).
“Empresas em certos setores no Brasil têm uma interação boa com universidades, e outras não. Por um lado, há conhecimentos que não se concretizam como geração de valor para a sociedade. Por outro, muitas empresas são carentes de tecnologias e insumos necessários para se tornar competitivas”, afirma.
A reformulação dos cursos de engenharia no Brasil é uma das principais ações da agenda de recursos humanos para a inovação da MEI.
De acordo com Kern, uma grande preocupação do setor empresarial é o patamar elevado de evasão nas graduações de engenharia, que se mantém na casa dos 50%. Esse alto índice prejudica o fluxo de contratação de egressos nas empresas.
Entre 2016 e 2018, o executivo da Embraer coordenou um grupo de trabalho com dirigentes de empresas e universidades, além de representantes de associações de classe da área. Dessas discussões saiu a proposta de novas diretrizes curriculares em engenharia, espécie de espinha dorsal da organização de todos os cursos da área do Brasil.
As novas regras são centradas no modelo de ensino baseado em projetos, focado na formação de competências alinhadas às demandas do mercado de trabalho e das rotinas de inovação.
Listas de disciplinas obrigatórias perdem espaço na nova estrutura, e instituições de ensino ganham autonomia e flexibilidade na elaboração dos projetos pedagógicos.
A proposta foi aprovada em abril deste ano pelo Conselho Nacional de Educação, ligado ao Ministério da Educação. Assim, os cursos de graduação devem se adaptar em até três anos.
Em pesquisa sobre a graduação em engenharia no país, a professora da Unicamp Janaina Pamplona da Costa identificou que profissionais da área enxergam problemas comuns nos cursos.
Entre esses gargalos, estão sobrecarga de aulas teóricas, proporção reduzida de atividades práticas e falta de contato com outras áreas, como as humanidades.
Sem tratar especificamente das novas diretrizes curriculares, a professora diz que o ensino baseado em projetos é interessante, mas vê riscos em propostas de aproximação da universidade com a sociedade por meio exclusivamente do mercado.
Segundo ela, novos formatos acadêmicos estão em debate. “Quando os estudantes são formados de acordo com as necessidades atuais do mercado, é possível que a capacidade crítica e de resolução de problemas seja limitada, já que os problemas mudam”, afirma a professora.
Para Costa, os entraves da formação de engenheiros no país requerem soluções mais amplas, como mudanças no ensino básico, para formar estudantes que cheguem à universidade com mais autonomia, e reforço da interdisciplinaridade nos currículos de cursos de engenharia.
“É importante dar espaço para estágios em empresas, mas também para outras vivências na universidade”, afirma a professora.