SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quando o colombiano Reinaldo Rueda assumiu o comando do Chile, em janeiro de 2018, o objetivo era claro: recolocar nos trilhos uma seleção que não conseguiu classificação à Copa do Mundo da Rússia, além de iniciar um processo de renovação na equipe nacional.
Mas o futuro imediato apontava uma Copa América com a responsabilidade de defender o bicampeonato conquistado em 2015 e 2016. Por isso, o treinador veio ao Brasil com o elenco-base dos títulos continentais. Na estreia contra o Japão, por exemplo, 8 dos 11 titulares estavam presentes nas conquistas sobre a Argentina que colocaram os chilenos no topo da América do Sul.
Segundo Rueda, uma herança muito bem recebida dos comandantes anteriores, todos os argentinos.
“São jogadores que por sorte tiveram um grande processo, fazendo sua última etapa de formação com Marcelo Bielsa em suas idades-chave. E depois vieram [Jorge] Sampaoli, [Juan Antonio] Pizzi, com quem também viveram grandes fases. O jogador chileno, você precisa tirar eles do campo, porque querem seguir treinando”, disse o técnico, na entrevista coletiva desta quinta-feira (27), na Arena Corinthians.
Nesta sexta (28), em Itaquera, diante da Colômbia, o Chile enfrentará seu principal desafio até aqui na Copa América. Os colombianos venceram todos os jogos da fase de grupos, a única seleção com 100% de aproveitamento no torneio.
Para o técnico do Chile, a força do adversário, hoje comandado pelo português Carlos Queiroz, também advém do respeito ao processo anterior liderado por José Pékerman, que levou a Colômbia aos MUndiais de 2014 e 2018. 
“A Colômbia fez uma fase de grupos extraordinária, com grande eficácia e mostrando toda a maturidade e solidez de uma equipe que tem conseguido expressar o que quer nos últimos anos. Começaram com o professor Pékerman, e mantiveram depois da Copa do Mundo da Rússia. Está ratificando a cada jogo o que quer expressar”, afirmou.
Reinaldo Rueda, 62, é o sexto técnico estrangeiro do Chile desde 2005, quando o chileno Juvenal Olmos foi demitido pela federação.
A tentativa seguinte a Olmos foi com o uruguaio Nelson Acosta, que terminou sua carreira de jogador no Chile, onde também construiu larga trajetória como técnico.
Em 2007, com Acosta no comando, a seleção passa por um ponto de inflexão. Enquanto a equipe principal disputava a Copa América na Venezuela, a sub-20 jogava o Mundial da categoria.
O surgimento de nomes interessantes nos dois grupos iniciou o processo de formação do time que ficaria marcado como “Geração Dourada”, formado por jogadores como Gary Medel, Mauricio Isla, Arturo Vidal e Alexis Sánchez (todos no Brasil para a Copa América), na mais jovem, e figuras como Claudio Bravo e Jorge Valdivia, na principal. 
Um processo que se mostraria vitorioso, mas que começou de forma turbulenta.
“Ambos os torneios terminam com escândalos. Briga com a polícia no Canadá e indisciplina em um hotel da Venezuela”, lembra o jornalista chileno Alejandro Cisternas, editor do diário El Mercurio.
O caso de indisciplina citado por Cisternas aconteceu na classificação da equipe às oitavas de final da Copa América de 2007. Após passarem da fase de grupos como um dos melhores terceiros colocados do torneio, os jogadores pediram uma noite livre ao técnico Nelson Acosta para que festejassem a classificação.
Os festejos saíram de controle e se estenderam até a manhã do dia seguinte, com os atletas causando transtornos aos funcionários e hóspedes do hotel em Puerto Ordaz.
No Canadá, os jovens da sub-20 caíram para a Argentina na semifinal e entraram em conflito com a polícia canadense depois do apito final, revoltados com a arbitragem do alemão Wolfgang Stark, que expulsou dois chilenos.
“Então se instala a ideia de que para começar um novo processo e ordenar esses jogadores que pareciam ter bom futuro, era necessário um técnico que inspirasse respeito”, explica Cisternas.
Com a chegada de Marcelo Bielsa ao Chile, começa o ciclo de sucesso dos argentinos.
Bielsa implementa na seleção chilena a ideia de ser protagonista do jogo, independentemente do rival. Baseado no conceito de recuperar a bola e atacar com frequência, a equipe se classifica à Copa do Mundo de 2010.
Um desentendimento do argentino com o presidente da federação em 2011, Sergio Jadue, marcou o fim de sua passagem pela seleção.
O substituto, outro argentino, foi Claudio Borghi, dono de bons trabalhos à frente do Colo-Colo, o clube mais popular do país. Mas o início irregular nas eliminatórias do Mundial de 2014, no Brasil, encerrou precocemente o comando de Borghi, em 2012.
O que não mudou foi o modus operandi da federação na hora de buscar a contratação dos dois treinadores seguintes, ambos com currículo de conquistas no futebol local e responsáveis pelo bicampeonato da América.
Tricampeão chileno e campeão da Copa Sul-Americana com a Universidad de Chile, Jorge Sampaoli, com ideias futebolísticas semelhantes às de Bielsa, levou os chilenos ao título da Copa América em 2015. 
No ano seguinte, deu lugar a outro argentino, Juan Antonio Pizzi, de passado vitorioso no comando da Universidad Católica (CHI) e campeão da Copa América Centenário, em 2016. Curiosamente, um bicampeonato com a assinatura de dois argentinos justamente contra a seleção de seu país -apesar de Pizzi ter nacionalidade espanhola.
Sem a classificação para o Mundial de 2018 e com a tal “Geração Dourada” já envelhecida, o alto comando do futebol chileno entendeu que Reinaaldo Rueda, com trabalhos nas seleções da Colômbia, de Honduras e do Equador, era o homem mais indicado para a renovação do time.
“Quando chegou, Rueda teve que enfrentar dois desafios: um esportivo e o outro humano. Fora da Copa na Rússia, e com a ‘Geração Dourada’ com mais de 30 anos, entenderam que seria lógico buscar novos jogadores pensando no Qatar-2022”, completa Alejandro Cisternas.
Nesta sexta, a geração de ouro do futebol chileno tentará manter viva a caminhada pelo tricampeonato. Para aí, quem sabe com mais uma taça, Reinaldo Rueda poder iniciar de fato o processo de renovação da seleção. O que, para um técnico com apenas 18 meses de trabalho, é melhor fazer com a credencial de campeão.