RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Rafael Dudamel, 46, é um técnico incomum da mesma maneira que foi um goleiro pouco usual. É mais lembrado pela torcida brasileira por ter enfrentado o Palmeiras pelo Deportivo Cáli (COL) na final da Libertadores de 1999. Falastrão e batedor de pênaltis, era comparado com o paraguaio José Luiz Chilavert. Em 22 anos como goleiro profissional, atuou 116 vezes pela seleção e fez parte de quatro Copas América, entre 1993 e 2001.
Como treinador, ele revoluciona a seleção venezuelana. No sub-20, foi vice-campeão mundial na Coreia do Sul em 2017. Um resultado inédito para o futebol do seu país. Com a campanha ruim nas eliminatórias para a Copa da Rússia de 2018, foi chamado para substituir Noel Sanvicente em 2016. Ele não levou o time à inédita vaga para o mais importante torneio de seleções. Mas a fez melhorar o desempenho.
Pior para os paraguaios, que se classificariam com uma vitória em casa sobre a Venezuela na última rodada. Perderam por 1 a 0. Foi quando Dudamel mostrou habilidade também com o microfone, ao revelar histórias que, normalmente, ficariam nos bastidores.
Após a partida, ele disse que foram mandadas mulheres para ficar no mesmo hotel dos seus jogadores da Venezuela.
“Escolheram bem as garotas. Era cada uma!”, afirmou.
A ideia era usar a história para enfatizar que seus jogadores não haviam caído na tentação e mostrado profissionalismo.
Falar sobre artifícios extracampo dessa natureza não é um assunto comum em entrevistas de técnicos de seleções. Mas Dudamel não costuma tergiversar nas respostas. É rotineiro os jogadores e até jornalistas venezuelanos durante a Copa América, em conversas com estrangeiros, evitarem falar de política.
Ninguém quer se posicionar sobre a crise econômica e humanitária no país ou a disputa entre o ditador Nicolás Maduro e o líder da oposição Juan Guaidó.
Após vitória em amistoso contra a Argentina, em março, Dudamel ameaçou renunciar ao cargo. Ficou irritado com o uso político feito pelo governo com o resultado em campo.
Ele não deseja que isso se repita caso a Venezuela vença a Argentina nesta quinta (27) e avance à semifinal da Copa América.
“Aquela experiência foi boa para os que fazem política entenderem que o futebol é um espaço diferente. A seleção é para construir um país, dar alegria ao povo. Que nos deixem trabalhar tranquilo. Ficamos com o futebol, que é o melhor que sabemos fazer”, pediu.
Não é uma declaração que agrade aos políticos, do governo ou oposição. Mas ninguém é capaz de fazer nada contra o técnico no momento de crescimento do futebol venezuelano, em que a equipe consegue resultados expressivos contra seleções tradicionais. No torneio continental deste ano, a Venezuela empatou com o Brasil.
Dudamel não diz com todas as letras, mas parece ver o trabalho como uma missão. Não apenas de resultados, mas para tornar ainda mais popular no país o futebol. O esporte, por tradição, está atrás do beisebol e basquete na preferência da população.
Criar o hábito de ver o futebol como uma forma de identificação nacional fará a qualidade dos jogadores crescer ainda mais.
“Algo que admiro sempre das seleções sul-americanas é esta entrega, garra, competitividade que faz com que tudo tenha mais valor. Viver, respirar e comer futebol. Nós vamos por este caminho. Nestes países [o futebol] é uma cultura, é o que faz com que os jogadores despertem paixão nas pessoas”, analisou o treinador, sempre articulado e sem receio de falar pelos cotovelos.
E ele não faz muita questão de esconder que o resultado contra a Argentina pode ter o poder de mudar o destino do futebol em seu país.
“Todo o país estará paralisado vendo a sua Vinotinto [apelido da seleção] ir a campo para tentar lhes dar alegria”, finalizou.