SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma série de protestos mergulhou Honduras em uma de suas piores crises institucionais desde o golpe de Estado de 28 de junho de 2009, que completa dez anos nesta sexta-feira (28).
Desde o início do mês, diversas cidades do país registraram manifestações pedindo a renúncia do presidente Juan Orlando Hernández, que reagiu com forte repressão policial.
As manifestações foram convocadas por médicos e professores em resposta a decretos presidenciais que previam mudanças nos sistemas de saúde e educação. O movimento rapidamente aglutinou outras categorias, inclusive policiais e caminhoneiros, e se transformou em uma revolta generalizada contra o governo.
O presidente –que é conhecido por suas iniciais, JOH– ordenou que as Forças Armadas reprimissem os protestos com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Houve confrontos na capital, Tegucigalpa, e em outras partes do país. A violência deixou ao menos dois mortos e dezenas de feridos.
“As autoridades hondurenhas não devem prosseguir no caminho da violência e da repressão”, disse em nota Erika Guevara-Rosas, diretora para as Américas da ONG Anistia Internacional. “Exigimos que a administração de Juan Carlos Hernández respeite os direitos à liberdade de expressão e manifestação pacífica”.
Honduras enfrenta instabilidade política e retrocessos institucionais desde o golpe de Estado de 2009, que depôs o presidente Manuel Zelaya. Na época, os militares do país opunham-se aos planos de Zelaya de buscar a reeleição, bem como à sua aliança com governos de esquerda na América Latina. O Brasil cumpriu um papel importante durante a crise, oferecendo asilo ao presidente deposto na embaixada em Tegucigalpa por mais de quatro meses.
Desde então, o país centro-americano é comandado por governos de direita apoiados pelos Estados Unidos. JOH foi eleito em 2013, e conquistou um segundo mandato nas eleições de 2017 –o pleito foi marcado por fraudes, de acordo com a OEA (Organização de Estados Americanos), e resultou em uma onda de manifestações que terminou com cerca de 30 mortos e centenas de detidos.
“Desde a ruptura constitucional há dez anos, em 28 de junho de 2009, têm sido implementados mecanismos arbitrários de governabilidade que priorizam a eliminação de pesos e contrapesos institucionais”, diz um boletim recente do Comitê de Familiares de Presos Desaparecidos em Honduras (Cofadeh, na sigla em espanhol).
A pobreza crônica e a presença de gangues fazem de Honduras um dos países mais violentos do mundo. Estes fatores levaram milhares de pessoas a fugir do país nos últimos anos em busca de melhores condições de vida em outras partes do continente, especialmente nos Estados Unidos.
O endurecimento das regras de imigração é uma das principais bandeiras do presidente americano, Donald Trump. Sem o aval do Congresso para erguer um muro na fronteira com o México, o republicano intensificou as patrulhas contra imigrantes sem documentação e promoveu a separação de famílias, mantendo crianças desacompanhadas em jaulas. Muitos dos imigrantes perseguidos pelo governo americano vêm de Honduras e outros países na América Central.
“Muitas pessoas deixam seus países porque temem por suas vidas e simplesmente não têm outra opção”, diz um relatório de março da ONG Médicos Sem Fronteiras. “Ao negar o acesso ou deportá-las de volta para seus locais de origem, o governo dos Estados Unidos demonstra pouco se importar com os graves perigos que elas enfrentam”.