FOLHAPRESS) – Uma cidade em ebulição industrial, cultural e política, onde a cada instante novos pilares da modernidade se constroem. Dos carros inventados por Renault ao cinema criado pelos irmãos Lumière, a Paris do final do século 19 é o centro do mundo. Ao menos, é assim que “Cyrano, Mon Amour”, filme de Alexis Michalik, desenha o contexto da cidade onde Edmond Rostand (Thomas Solivérès) tenta dar seus primeiros passos como dramaturgo. 
Pupilo da lendária atriz Sarah Bernhardt (Clémentine Célarié), mas ainda rejeitado pelo público, Rostand é antes de tudo um jovem sonhador em busca de inspiração. E é sobre a jornada para conceber sua obra máxima, a peça “Cyrano de Bergerac”, baseada na vida de Hector Savinien de Cyrano de Bergerac, escritor francês do século 17, que o filme concentra suas atenções.
Em clima de conto de fadas, despreocupado com a precisão dos fatos, o longa não é um documento histórico, mas, sim, uma declaração de amor do diretor a seu personagem. Pois Alexis Michalik ama Rostand. Já havia dedicado uma multipremiada peça ao dramaturgo nos palcos franceses, antes de se aventurar a recontar a mesma história nos cinemas.
Visto por mais de 500 mil pessoas na França, o longa tem ares de superprodução, com exuberância técnica a cada plano, trilha orquestrada que induz à emoção sem pieguice, em reconstrução elegante e fantasiosa de uma época marcante. A paixão pelo tema está impressa a cada momento e não deve demorar para que o espectador se contamine. É inegável, mesmo aos mais exigentes, que “Cyrano, Mon Amour” sabe lidar com a linguagem clássica do cinema e com a sede do grande público de se jogar em boas histórias. 
Atmosfera de fantasia em uma capital propícia a devaneios românticos o filme oferece de sobra. Como previsto em qualquer receita, porém, excesso de açúcar também causa indigestão. Encantadora tanto quanto ingênua, com recorrentes doses de clichês, a homenagem a Rostand insiste em caminhos fáceis de roteiro, desenvolvendo sua trama e solucionando seus conflitos com saídas milagrosas. 
O carisma do elenco principal, no entanto, faz pender a balança para o lado positivo e não cessa de comprovar a versatilidade de Olivier Gourmet, figura recorrente do cinema francês, que tanto serve à gravidade dos filmes dos irmãos Dardenne quanto à astúcia aqui encarnada na representação de Constant Coquelin, ator histórico dos palcos da França, aquele que primeiro representou o papel de Cyrano.
Com ecos de “Shakespeare Apaixonado” (1998), filme de John Madden ganhador do Oscar de melhor filme em 1999, “Cyrano, Mon Amour” insiste na potência criativa da cultura como verdadeiro motor do mundo.
Em uma Paris voltada às novas invenções e às promessas de progresso, brilhou aquele que apostou na tradição milenar do teatro, na recuperação de um escritor histórico do imaginário nacional e que, mesmo em dificuldades financeiras, seguiu apostando em seus sonhos. 
Bonito, ingênuo, emocionante, alienante, bobo? Tudo cabe ao filme de Alexis Michalik. Quem der uma chance, passeará por sentimentos diversos. E estando aberto a um entretenimento leve, sairá um pouco mais aquecido. Em tempos nos quais muitas portas se fecham, talvez também caiba ao cinema relembrar a grandeza de se insistir na arte.

CYRANO MON AMOUR (EDMOND)
Produção: França, Bélgica, 2018
Direção: Alexis Michalik
Elenco: Thomas Solivérès, Olivier Gourmet, Mathilde Seigner
Classificação: 14 anos
Avaliação: bom