BOLONHA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Se o Cinema Ritrovato em sua 33ª edição apostou nas virtudes de Musidora, para a Europa, e Henry King, para os EUA, os primeiros  dias trouxeram a confirmação do egípcio Youssef Chahine como um dos grandes cineastas da era moderna.
Comecemos pelas decepções. Musidora continua uma atriz encantadora mais de um século depois de seu sucesso como Irma Vep. Mas uma das esperanças da mostra de Bolonha era descobri-la como diretora. Era também um objetivo do lobby feminista. 
Afinal, a década de 1920 é aquela que vê as mulheres sendo excluídas do papel de diretoras. Musidora é uma das raras exceções. No entanto, o resultado de seus filmes exibidos aqui é, para falar suavemente, normal. Talvez um pouco menos.
Quanto a Henry King, seu trabalho no mudo, desde os anos 1910, é tido como um dos mais importantes do cinema americano.
Talvez seja uma questão de seleção, mas até agora o que se viu de mais marcantes foram os seus notáveis, porém já bem conhecidos, faroestes dos anos 1950: “O Matador” e “The Bravados” (Estigma da Crueldade) –o “Matador”, diga-se, tem passado no Telecine.
Chahine conhecemos no Brasil por uma de suas obras-primas, “O Destino”, que Leon Cakoff trouxe para a Mostra de cinema. Aqui em Bolonha foi possível ver “Por que Alexandria?”, de 1978, outra obra-prima, desta vez ambientada durante a Segunda Guerra, numa cidade cosmopolita por onde circulam ingleses, alemães, italianos, americanos. Ali um jovem apaixonado por cinema tem por objetivo, após o fim dos combates, ir aos EUA para estudar sua arte.
Eis a essência de Chahine. Em lugar do conflito ele elege o encontro como centro de seu cinema. Nisso contraria frontalmente o modo de ser habitual do cinema (que costuma opor o bom ao mau, o certo ao errado), pois os seus filmes buscam mais a aproximação do que o distanciamento e o fechamento.
Considerando o mundo presente, com sua tendência do fechamento de fronteiras e do retorno ao nacionalismo desvairado, a modernidade que se afirma em seus filmes não é apenas formal. Ela nos diz muito sobre o mundo presente.
É verdade que os demais filmes, feitos em sistema de estúdio (o Egito tem vasta tradição de estúdios), nem sempre chega a substituir conflitos por encontros. Mas os encontros são mais significativos desde “Céu Infernal”, de 1954, início de sua carreira e também da de Omar Sharif, que surge aqui com um rosto surpreendentemente ocidental, enquanto Hollywood tratou de realçar justamente o seu lado, digamos, exótico.
Chahine consegue outro prodígio em “Gente do Nilo”, coproducao Egito e União Soviética de 1968, em torno da construção da represa de Assuan. Uma encomenda, é certo, que conseguiu a proeza de ser proibida tanto na URSS como no Egito. Sobreviveu em sua integridade porque Chahine conseguiu remeter uma cópia integral para a Cinemateca Francesa, via embaixada daquele país no Egito.
Com efeito, o cineasta não doura a pílula, nem comete juras de amor eterno entre os dois países ou algo assim. Ele prefere destacar os pontos comuns, as pontes que se abrem entre as pessoas e os povos do que acentuar o trabalho dos estados nacionais.
Os filmes produzidos pela Alemanha Ocidental ocupada, outro belo programa apresentado no festival, destacam-se por sua importância histórica antes de tudo. É o momento em que a Alemanha perguntava o que seria dela. E seus filmes ecoam essa preocupação de país ocupado.
Talvez o melhor exemplo seja “Um Filme sem Nome”, cujo título fala bem das hesitações de três cineastas sobre o roteiro a escrever nesse tempo de pós-guerra.
O filme de Rudolf Jugert, de 1948, pode não ser uma obra-prima, mas tem momentos primorosos, sobretudo no início, quando mostra a casa de uma família abastada vivendo como se não houvesse guerra e como se os Aliados não estivessem cada vez mais próximos.
Enquanto espera por Francis Ford Coppola, a grande estrela do ano, e Jane Campion, outra estrela, embora menor, o Ritrovato segue entre altos muito altos e baixos por vezes muito baixos –por favor, “Kiddies”, de Henry King, é um filme arquissecundário. Mas os altos, como a seleção do francês Georges Franju, compensam as decepções.