RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Dos 10 países filiados à Conmebol, apenas 1 nunca foi à Copa do Mundo. A mesma seleção que, ao lado do Equador, jamais foi campeã da Copa América.
Eliminar a Argentina nesta sexta (28), nas quartas de final do torneio continental, seria o sinal mais forte de que a Venezuela está perto de mudar isso.
Saco de pancadas do continente até o final do século passado, a seleção começa a colher os frutos, apesar da crise econômica e humanitária no país, do trabalho a longo prazo, do aumento da visibilidade do esporte e do fortalecimento da liga nacional.
“Esse será um jogo para homens. Uma partida de caráter. A nossa história fala em crescimento, e os resultados estão aparecendo com muito esforço. Não temos medo”, disse nesta quarta (26) o meia Tomás Rincón, 31.
Ele faz parte da equipe titular, que atua toda no exterior. Rincón é jogador do Torino (ITA) e um dos principais nomes do elenco ao lado do lateral Roberto Rosales, do Espanyol (ESP), e do atacante Salomón Rondón, que disputou a última temporada europeia pelo Newcastle (ING).
Embora ninguém tenha percebido na época, as primeiras sementes do crescimento da seleção aconteceram nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002, a partir da chegada do técnico Richard Páez em 2001.
Nas 7 rodadas finais, a Venezuela venceu 4 vezes. Bateu Uruguai, Chile, Peru e Paraguai. Também empatou com a Colômbia. Não foi o bastante para chegar perto da classificação, mas a sequência de resultados chamou a atenção.
Encarregado também de comandar a seleção sub-20, Páez (hoje no Deportivo Cuenca, do Equador) iniciou o planejamento. Mas faltava apoio. O futebol não tinha visibilidade no país.
“Há o mérito da federação de ter acreditado em um projeto que no início não parecia possível”, afirma o meia Arango, 39, que fez 127 partidas pela seleção.
O futebol e a equipe nacional começaram a se popularizar no país por uma série de fatores que aconteceram em sequência. Com Páez no cargo, a Venezuela chegou a sonhar com a vaga para o Mundial de 2006. O torneio disputado na Alemanha pela primeira vez foi transmitido por emissoras abertas de forma maciça, atraindo um público jovem que antes só assistia ao beisebol, o esporte mais popular do país.
No ano seguinte, a Venezuela recebeu a Copa América, impulsionada pelo dinheiro do petróleo do governo do presidente Hugo Chávez, morto em 2013. Três novos estádios foram construídos, e outros três acabaram demolidos e erguidos novamente. A estimativa é que a organização do torneio tenha custado, no total, US$ 900 milhões (R$ 3,45 bilhões em valores atuais).
O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, determinou abertura de investigação sobre corrupção na organização da Copa América depois de o ex-prefeito de Maracaibo, Giancarlo Di Martino, afirmar ter pago US$ 1 milhão (R$ 3,84 milhões) de propina para que a cidade recebesse a final, que foi disputada entre Brasil e Argentina.
A Venezuela chegou às quartas de final, mas acabou eliminada pelo Uruguai. Quatro anos depois, sob o comando de César Farias, caiu apenas na semifinal, diante do Paraguai, na disputa de pênaltis.
“Podemos conseguir um momento histórico. As outras seleções têm talentos individuais, mas nós também temos”, opina Rincón.
Por uma decisão da ditadura de Nicolás Maduro, a liga de futebol venezuelana se tornou atrativa a empresários do país, e isso fez o futebol nacional ter mais times e mais jogadores.
Por medida estatal, os clubes profissionais da primeira divisão foram autorizados a comprar a partir de 2016 dólares pelo câmbio oficial do Cencoex (Centro Nacional do Comércio Exterior). Era um privilégio reservado aos donos de times dos torneios de beisebol e basquete.
Os empresários podem obter a moeda oficial e depois revendê-la pelo câmbio negro. Dependendo da variação da cotação, o lucro pode ser de 300% a 600% em cada operação.
O governo continua sendo fonte de influência no futebol e na seleção. Dirigentes da federação são ligados a Maduro. Um deles é Pedro Infante Aparício, também ministro da Juventude e Desportes.
Estatais patrocinam os clubes Trujillanos, Atlético Venezuela, Aragua e Deportivo Táchira. O Zamora pertence a Adelis Chavez, irmão do ex-presidente Hugo Chávez.
Entregue nas mãos de Rafael Dudamel, ex-goleiro da própria equipe nacional, a Venezuela tem como maior desafio manter o nível nas eliminatórias sul-americanas para a Copa do Qatar-2022. O torneio terá duração de 20 meses, de março de 2020 a novembro de 2021.
Dudamel se credenciou a dirigir a seleção por ter revelado a geração mais promissora de jogadores venezuelanos. A seleção sub-20 foi vice-campeã mundial em 2017. Perdeu para a Inglaterra na final. Na preparação de dois anos, foram disputados 50 amistosos.
Para estimular as chances a atletas jovens, a liga estipulou que cada time profissional deve escalar em cada partida pelo menos um atleta sub-20.
Dudamel já disse acreditar que o melhor ainda está por vir. Pode começar nesta sexta, contra a Argentina.
“Não somos favoritos. Mas não temos medo deles. É uma linha muito tênue entre a confiança e o excesso de confiança. É uma partida para os grandes. Se você quer saber se eu acho que podemos ganhar, sim, podemos”, concordou o volante Luis Manuel Seijas, com a cabeça no amistoso disputado em março deste ano, em Madri, vencido pela Venezuela por 3 a 1.
Com a cabeça nas eliminatórias, Dudamel avalia que a Venezuela já é mais forte que Bolívia, Equador e Paraguai. Com isso, está mais perto do que nunca do primeiro Mundial.