SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – As cores do arco-íris espalham-se pelos bancos de praça e pelo anfiteatro no centro da praça. Do chão, refletores projetam uma iluminação que vai do vermelho ao violeta.
A cidade de Madre de Deus (a 63 km de Salvador) ganhou em março deste ano seu primeiro espaço público com a temática LGBT, a Pracinha dos Gays.
Mesmo sendo um espaço modesto, a iniciativa segue a linha de outras cidades do mundo, como Buenos Aires, Montevidéu e Vancouver, que possuem praças e ruas que homenageiam a diversidade sexual.
Com cerca de 20 mil habitantes, Madre de Deus é o menor município da Bahia em território, tendo sido desmembrado da capital em 1989. É conhecido por suas praias e por abrigar um terminal marítimo da Petrobras.
A praça é um daqueles casos no qual o nome popular se sobrepôs ao nome oficial do logradouro. O espaço foi erguido há décadas e era conhecida como praça dos veranistas.
A partir dos anos 1990, contudo, o local passou a ser um ponto de encontro e de apresentações culturais da comunidade da LGBT da cidade e ganhou o apelido de pracinha dos gays.
Após decidir reformar o espaço no ano passado, a prefeitura optou por assumir o apelido dado pelos moradores. Fez uma votação em suas redes sociais e o nome Pracinha dos Gays foi escolhido por 73% dos participantes da enquete, superando “Vale das Cores” e “O Vale”.
“A população, sobretudo a juventude, abraçou a ideia de homenagear a liberdade de orientação sexual. Queremos que esta praça seja um espaço para todos os moradores”, explica o prefeito Jeferson Andrade (PP).
Ele afirma que a praça é a parte mais visível da política local de direitos para a população LGBT: a cidade já adota ações contra a homofobia nas escolas, além da contratação e capacitação de servidores transexuais, que usam os seus nomes sociais nos órgãos públicos.
Moradora de Madre de Deus e vice-presidente do conselho estadual dos direitos da população LGBT da Bahia, Thati Teylon vê a nova praça como um espaço contra a intolerância.
“Temos tantas cidades com Praça da Bíblia, por exemplo. Qual o problema de ter uma praça em homenagem à diversidade sexual?”, afirma Thati, citando municípios como Salvador e Simões Filho, que possuem praças em homenagem ao livro sagrado dos cristãos.
Ainda assim, ela critica o nome adotado pela prefeitura: “Como mulher trans, esse nome não me representa. Queria que fosse algo mais inclusivo, como Praça da Diversidade. Mas fui voto vencido”, afirma.
O presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, diz não ver problemas na homenagem nem no nome adotado para a praça. Pelo contrário: acha que a iniciativa deve servir de exemplo para outras cidades do país.
“Achei o nome carinhoso e respeitoso. Precisamos de visibilidade, sobretudo nesta época tão difícil e de tanta violência contra os homossexuais”, diz.
O novo visual e novo nome da praça não foram bem aceitos por todos na cidade. Em redes sociais, alguns moradores criticaram a escolha.
“Uma cidade cujo nome referenda a mãe de Deus agora tem uma praça que afronta sua mãe”, disse um morador da cidade, que cobrou a inauguração de uma “praça do hetero”. Outro morador afirmou que se recusava a levar seu filho pequeno para passear na Pracinha dos Gays.
Um mês depois de inaugurada, a praça foi alvo de vandalismo. Plantas foram destruídas e refletores, quebrados.
Thati Teylon lamenta o vandalismo e defende a ocupação do espaço com atividades culturais e debates organizados por entidades locais que militam na defesa dos direitos dos LGBT.
Nesta sexta-feira (28), quando se comemora o Dia do Orgulho LGBT, a praça será palco de uma roda de conversa e de apresentações artísticas. Mas a ideia é manter um cronograma de atividades durante todo o ano.
“Estamos vivendo em um mundo com muito preconceito e desunião. Por isso, vamos ocupar a praça e mandar o nosso recado”, afirma.