SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Se nas décadas passadas o desenvolvimento de áreas urbanas priorizou a chegada dos automóveis, fazendo com que ruas tivessem mais espaço que calçadas, a nova lógica de mobilidade vai na contramão ao exigir vias que priorizem o pedestre.
“Esqueçam aquela ideia de que cidade do futuro parece ficção científica. A cidade inteligente coloca a pessoa em primeiro lugar e tem o cidadão como ponto principal dessa discussão”, afirmou Stella Hiroki, fundadora da plataforma Smart City Talks.
Hiroki participou do segundo debate do 3º fórum Segurança no Trânsito, Mobilidade e Inovação, realizado pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (26), em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake. O evento contou com patrocínio da CCR e apoio da Plural (associação nacional de distribuidoras de combustíveis).
Pensar na cidade para o pedestre significa discutir também seu deslocamento, destacou Hiroki, a exemplo daquele que utiliza a patinete elétrica para pequenas distâncias. Em São Paulo, o veículo de duas rodas tem disputado cada vez mais as calçadas da cidade após um boom de empresas que as oferecem via empréstimo. Para alugar uma, basta um celular, cadastro em aplicativo e ter créditos.
Polêmicas envolvendo a segurança de seus usuários e adequação a normas de trânsito, no entanto, têm crescido na mesma medida de sua demanda. Para João Sabino, diretor de assuntos institucionais da Grow, empresa que oferta as patinetes, isso ocorre porque o pedestre é o polo mais vulnerável numa disputa por espaço que inclui carros, ônibus e bicicletas.
Evitar acidentes, defendeu, pede melhoria da infraestrutura cicloviária, campanhas de segurança e, principalmente, educação do usuário.
“Quem aqui tem medo de andar de patinete?”, perguntou Sabino à plateia. “Vocês estão completamente certos”, replicou após metade dos presentes levantarem as mãos. Segundo o representante da Grow, 95% dos acidentes com patinetes ocorrem nas cinco primeiras corridas dos usuários, o que evidencia a falta de preparo de quem as pilota. “Por mais que pareça uma coisa lúdica, patinete elétrica não é brinquedo”, disse.
Entre os participantes do debate estava Eronildo Chagas, segundo sargento da reserva do Exército Brasileiro que foi atropelado por um carro enquanto ia para o trabalho numa patinete elétrica. Um carro o atingiu na avenida Brasil, nos Jardins, bairro da zona oeste de São Paulo, quando atravessava a faixa de pedestres.
“Em São Paulo não tem nem calçada para o pedestre, quem dirá faixa para patinete”, reclamou sobre a falta de espaço para o modal que, na sua avaliação, descomplica e barateia as viagens diárias do bairro do Jaraguá, onde mora, à região central.
Pouco mais de um mês após o acidente, o saldo das duas fraturas expostas na perna direita faz com que Eronildo precise de ajuda de muletas para caminhar. Para um trânsito de patinetes mais seguro, o sargento da reserva sugeriu que empresas só autorizem o empréstimo após a certificação de que o usuário fez um algum cursinho para pilotá-las.
Com tantas opções de deslocamento disponíveis, Francisco Pierrini, diretor-presidente da ViaQuatro e da ViaMobilidade, concessionárias responsáveis pela operação e manutenção das linhas 4-amarela e 5-lilás do metrô de São Paulo, defendeu a importância da integração entre diferentes modais. Se bem feita, pode melhorar a qualidade de vida dos habitantes, disse.
“As pessoas usam aplicativo para obter origens, destinos, trajetos e tempo gasto. A gente tem hoje o uso das bicicletas e, no metrô, oferecemos mais de mil vagas no bicicletário. O microtransporte está tomando conta do mundo inteiro e sistemas de ônibus, trem e metrô têm que fazer parte desse processo.”