RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O ex-governador Sérgio Cabral (MDB) prestará um novo depoimento na ação penal que apura o pagamento de propina a membros do COI (Comitê Olímpico Internacional) para a escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016.
A defesa do emedebista afirma que, no interrogatório marcado para a semana que vem, o réu pretende “identificar demais coautores e partícipes, revelar a estrutura hierárquica e divisão de tarefas” no pagamento a membros da entidade.
Cabral é acusado de ter pago US$ 2 milhões ao senegalês Lamine Diack para influenciar na escolha da cidade como sede dos Jogos. Também são réus no processo o ex-presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil) Carlos Arthur Nuzman e o ex-diretor da Rio-16 Leonardo Gryner.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal, o pagamento foi feito pelo empresário Arthur Soares, dono de prestadoras de serviços do estado, ao filho do membro do COI Papa Masata Diack. O valor foi debitado da propina paga a Cabral, segundo a procuradoria.
Embora o pagamento tenha sido feito apenas ao senegalês, emails interceptados durante a investigação sugeriam que o dinheiro tinha outros beneficiários. O delator Carlos Miranda, gerente da propina do ex-governador, afirma que Cabral lhe relatou na prisão ter pago US$ 2,5 milhões para atender ao pedido de quatro membros do COI.
O novo depoimento de Cabral reinicia o processo que ficou parado por oito meses aguardando documentos de cooperação internacional sobre o caso.
Desde o início do ano, o ex-governador vem confessando os crimes que lhe são atribuídos. O objetivo é tentar reduzir suas penas, que já somam 198,5 anos em nove condenações. Ele é réu em outras 20 ações penais na Justiça Federal e três na estadual.
Cabral depôs no processo sobre a suposta propina no COI em agosto do ano passado. Na ocasião, disse ver “preconceito racial” na acusação de compra de votos de membros africanos do comitê.
“O Ministério Público Federal está padecendo de preconceito racial. Essa coisa de dizer que africanos se reuniram para vender votos é preconceito racial”, disse Cabral em interrogatório ao juiz Marcelo Bretas.
Nuzman também negou em depoimento envolvimento com a suposta propina. O ex-dirigente, contudo, demonstrou dificuldades em explicar as provas mais fortes contra ele: emails em que era cobrado por pagamentos por Papa Massata Diack.
Uma das provas apresentadas pelo Ministério Público Federal são emails de Papa Diack em que afirma não ter recebido parte do valor devido, o que gerou “constrangimento de pessoas que confiaram no nosso comprometimento em Copenhague”.
“Eu recebi sim [esse e-mail], falei com a Maria Celeste [sua assessora]. Disse a ela que desconhecia esse fato. […] Quem tivesse que assumir alguma coisa, que fizesse”, afirmou Nuzman na ocasião.
O dirigente não pode ser condenado por esse fato, já que a corrupção privada não é crime no Brasil.
O ex-cartola é réu porque o Ministério Público Federal considera que, com a escolha da cidade, o comitê organizador dos Jogos, presidido por Nuzman, obteve verbas públicas por meio de patrocínios de estatais e beneficiou membros da suposta quadrilha de Cabral em contratos da Rio-16. Ele é incluído na denúncia como um “funcionário público por equiparação”.
A defesa de Nuzman solicitou novas diligências. Entre elas, informações das autoridades francesas sobre o mesmo caso. O Ministério Público francês compartilhou provas com a procuradoria brasileira e também acusou membros do COI de venda dos votos. O ex-cartola brasileiro, contudo, ainda não foi alvo de ação pública naquele país.
“O Nuzman está muito tranquilo, pois nada do que venha a ser dito poderá validar a absurda tese acusatória em seu desfavor. As inúmeras testemunhas ouvidas em juízo já comprovaram a improcedência da denúncia, no que lhe concerne, e isso é irreversível”, afirmou o advogado João Francisco Neto, que defende o ex-dirigente.