FOLHAPRESS – Em “Quem Você Pensa que Sou” existem três filmes. No primeiro, estamos na vida real, “na vida real”, bem entendido. Claire (Juliette Binoche) é uma professora de literatura na meia-idade, divorciada, desprezada pelo jovem Ludo, a quem namora. Ela entende a situação: é uma senhora transando com um rapaz. O rapaz a despreza e de certa forma a humilha. Ela sabe que a situação inversa (homens maduros, mulheres jovens) é bastante aceitável, mas não isso.
Diante disso ela aciona a internet. Cria um falso perfil, com o nome de Clara e faz contato com o jovem Alex, com quem começa um tórrido romance virtual. Ou seja, Clara nunca está disponível para o rapaz. Aliás, quando ele lhe pede uma foto, ela manda uma da sua jovem sobrinha. Com isso, mais as conversas de telefone, Alex fica perdidamente apaixonado. É um fotógrafo, afinal, apaixona-se por uma imagem facilmente. Clara, por sua vez, apaixona-se pela própria juventude.
Um romance tão tórrido quanto impossível se desenha e parece conduzir fatalmente à morte de um deles. Antes que isso aconteça, ela consegue romper o caso, sempre à distância. Ela sofre horrivelmente e Alex também. Tempos depois ela fica sabendo que Alex morreu, suicidou-se. 
Ao contrário do que se possa imaginar, estamos longe do final. Pois começa então a segunda parte, em que Clara transforma em livro essa experiência em que foi mulher apaixonada, psicopata de facebook, responsável pela morte de alguém. No livro, ela reconstrói essa relação, imaginando como seria o romance, caso ela e Alex tivessem, afinal, se encontrado. E caso ele tivesse até se apaixonado por ela (novamente, através da fotografia). É quando ela se dá conta, aliás, de duas ou três coisas sobre a condição feminina.
Como se vê, estamos no território de “Um Corpo que Cai”. De uma história sai outra. A segunda, em “Quem Você Pensa…” é o filme, quer dizer, o romance que ela escreve transformado em filme. Estamos longe da radicalidade (sem falar do talento) de um Hitchcock, é verdade, mas o território é esse.
Só que desse livro sai uma terceira história sobre a qual convém calar: é onde está a chave de tudo. No fim das contas temos um melodrama com altos e baixos, picos e vales, ao longo do qual Safy Nebbou busca confrontar alguns temas complexos (da feminilidade ao envelhecimento; do imaginário à internet -com suas fraudes e loucuras), ao mesmo tempo em que fornece a Binoche um veículo -coisa de que uma estrela precisa, de tempos em tempos-, sem fugir nunca à tradição do “filme de qualidade”.
Não é a melhor das tradições, porém, levando em conta a seca de um cinema comercial onde raramente se pode ver seres humanos de verdade, admita-se que em certos momentos Nebbou consegue alguma verdade em cena. Já é mais do que nada.

QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU (CELLE QUE VOUS CROYEZ)
PRODUÇÃO França, 2019
DIREÇÃO Safy Nebbou
ELENCO Juliette Binoche, Nicole Garcia, François Civil
CLASSIFICAÇÃO 16 anos
AVALIAÇÃO Bom