SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quando era criança e jogava bola com os meninos nas ruas de Parada de Taipas, zona norte de São Paulo, Andressa Alves já sonhava em ser jogadora de futebol.
Mas nem no sonho mais otimista poderia imaginar que hoje, aos 26 anos, estaria prestes a disputar uma final de Champions League.
O Barcelona (ESP), time defendido pela meia-atacante desde 2016, disputa pela primeira vez a decisão do torneio de clubes mais importante do futebol feminino. A final contra o Lyon (FRA) acontece neste sábado (18), em Budapeste (Hungria), às 13h (de Brasília).
“Felicidade muito grande. Você trabalha muito para chegar em uma final de Champions. O clube todo está de parabéns pelo apoio que dá ao futebol feminino, as meninas estão de parabéns pelo empenho nos jogos”, diz a camisa 10, primeira brasileira a jogar pelo time catalão, à reportagem.
Para conquistar a taça, porém, o Barcelona terá um compromisso difícil. O Lyon é uma das potências da modalidade e busca seu sexto título europeu, o quarto seguido, podendo alcançar uma sequência que nem a atual equipe masculina do Real Madrid (ESP) conseguiu no histórico recente da competição.
As francesas ainda contam com a melhor jogadora do mundo, Ada Hegerberg, norueguesa premiada com a Bola de Ouro em 2018, à frente de Marta, companheira de Andressa Alves na seleção. Ambas estão convocadas para a Copa do Mundo deste ano.
“A gente tem que ir com total respeito. Há muitos anos [o Lyon] vem sendo a principal equipe da Europa, já ganhou muitas Champions. A gente tem que ter bastante pé no chão, saber que elas são superiores, mas que em uma final acontece de tudo. Qualquer erro nosso o Lyon vai nos penalizar com certeza”, analisa a jogadora brasileira.
“Corintiana roxa”, Andressa Alves joga bola desde que se entende por gente. Para perseguir o desejo de uma carreira no futebol, diz que contou muito com o apoio da família. Só não conseguia escapar dos olhares feios dos vizinhos.
“O que que essa menina está fazendo no meio dos meninos?”, lembra a atleta dos comentários que ouvia na rua.
Fã do ex-atacante Ronaldo, lembra com carinho dos gols do camisa 9 na Copa do Mundo de 2002, em que o Brasil sagrou-se pentacampeão. “Só não cortei o cabelo cascão porque não dava, né”, brinca.
O primeiro teste para entrar em um clube veio apenas aos 16 anos, no Juventus, levada por um professor da escola. Aprovada, iniciou a carreira na equipe da Mooca.
No Brasil, passou por Foz Cataratas, Centro Olímpico, Ferroviária e São José até dar o salto para o exterior. Nos clubes brasileiros, nunca teve carteira assinada.
Fora do país, atuou no Boston Breakers (EUA) e no Montpellier (FRA) antes de chegar ao Barcelona, há três anos.
A carreira no exterior permitiu à atleta melhorar consideravelmente seu padrão de vida, além de poder ajudar os familiares, realidade rara entre jogadoras brasileiras.
“Consegui comprar uma casa para a minha família. No Brasil isso era praticamente impossível. Até por isso muitas jogadoras saem”, diz.
Segundo o diário espanhol El País, o salário médio do elenco feminino do Barça era de aproximadamente 2 mil euros (R$ 8.600) em março de 2018. Além do contrato com o clube, a camisa 10 do Barcelona é patrocinada pela Nike.
Na Espanha, a brasileira tem vivido de perto uma fase de euforia e evolução do futebol feminino, refletidas no número crescente de espectadores.
No último dia 17 de março, a vitória por 2 a 0 do Barcelona sobre o Atlético de Madri levou 60.739 pessoas ao Wanda Metropolitano, onde o time masculino da capital espanhola manda seus jogos. O número representou o recorde mundial da modalidade.
Em janeiro, a equipe feminina do Athletic Bilbao já havia levado 48.121 torcedores ao San Mamés para as quartas de final da Copa da Rainha.
Andressa credita esse crescimento do interesse a um investimento maior em ações de marketing por parte dos clubes, mas, principalmente, para a transferência de partidas para os estádios onde jogam as equipes masculinas.
O Atlético de Madri, por exemplo, atua geralmente na Cidade Esportiva Wanda, que tem capacidade para pouco mais de 3.000 pessoas e cuja assistência média ronda os 650 torcedores por jogo.
O Barcelona, porém, ainda não testou a fórmula. O time feminino joga no Miniestadi, um estádio anexo ao Camp Nou com capacidade para pouco mais de 15 mil torcedores. A casa onde atua a equipe de Messi e companhia comporta, segundo o próprio Barcelona, 99 mil espectadores.
Apesar da resistência do Barça ao Camp Nou e de o Real Madrid (ESP), por exemplo, não ter um time feminino, a meia-atacante acredita que a tendência é ver o futebol feminino espanhol ganhando maior projeção. E um título do Barcelona na Champions League poderia alavancar ainda mais esse sucesso.
“Um título dessa expressão para o clube e para o futebol espanhol seria fenomenal. É um título que pode mudar muita coisa aqui na Espanha, a gente sabe dessa responsabilidade. Seria muito bom ganhar para ter mais apoio”, diz.
Apesar de vestir a mesma camisa 10 de Lionel Messi, Andressa diz que não pode ser comparada ao argentino. “Às vezes você faz uma jogada e as pessoas comentam, mas não tem como comparar, ele é fora do normal, de outro planeta.”

LYON X BARCELONA
13h, em Budapeste (Hungria)
Na TV: ESPN Extra