SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Jürgen Klopp é um treinador moldado para partidas como a desta terça-feira (7), em Anfield.
Emotivo e elétrico, a versão punk rock do futebol, ele precisava que seus jogadores acreditassem no que ele dizia: mesmo sem Salah e Roberto Firmino, dois dos melhores atacantes do futebol europeu na temporada, era possível fazer quatro gols no Barcelona, não levar nenhum e ir à final da Liga dos Campeões. Fora do grupo de jogadores, quase ninguém levava fé nisso.
Era improvável, mas o Liverpool jogou 90 minutos como se esta fosse a partida mais importante da sua história, goleou o Barcelona por 4 a 0 e avançou à final do principal torneio de clubes do mundo.
No dia 1º de junho, enfrentará o vencedor do confronto entre Ajax (HOL) e Tottenham Hotspur (ING), em Madri.
As duas equipes se enfrentam nesta quarta (8), em Amsterdã. Na ida, os holandeses ganharam por 1 a 0.
O Liverpool havia perdido por 3 a 0 no Camp Nou, mas tinha jogado sem medo. Faltou aproveitar as chances criadas em uma partida em que o goleiro Ter Stegen, do Barcelona, foi um dos destaques.
Com as costas contra a parede, Jurgen Klopp dobrou a aposta, bem ao seu estilo. Era tudo ou nada. Mesmo desfalcado, seu time foi para frente.
Com Mané liderando o ataque e a dupla Origi e Shaqiri, que esquentaram o banco de reservas quase toda a temporada, nas pontas, o Liverpool precisava de algum sinal de que o improvável era possível.
Ele veio logo aos 7min. O Liverpool rezava pela aparição de heróis improváveis. Um deles foi Origi, que abriu o placar. Ele ainda protagonizaria o lance mais surreal de todos no segundo tempo.
Quando o primeiro tempo terminou, o Barcelona perdia por 1 a 0, mas tinha motivos para otimismo. O jogo era aberto e o time havia criado chances para marcar.
Isso teria acontecido se Suárez, ex-ídolo do Liverpool e xingado pela torcida em Anfield, e Messi não tivessem sido displicentes na finalização. E se Jordi Alba não vivesse uma noite tão ruim.
À beira do campo, Klopp pulava, jogava junto. Ele sempre faz isso porque é parte de sua personalidade. Mas contra o Barcelona, isso parecia ser ainda mais necessário.
A sorte sorriu para o Liverpool em alguns momentos, mas nenhum time já conquistou algum título sem a boa fortuna. O lateral Robertson se machucou e saiu ao final do primeiro tempo. O treinador alemão, fiel ao seu estilo, colocou o time para frente.
Mandou a campo Wijnaldum, um volante, mas repetindo o que já havia feito no Camp Nou, colocou-o como falso centroavante, um homem-surpresa na área do Barcelona. O holandês marcou duas vezes em três minutos.
Lionel Messi, tão decisivo na primeira partida, repetiu erro recorrente em seus jogos pela Argentina na Copa do Mundo da Rússia. Cada vez que recebia a bola, tentava entrar com ela no gol, sem passar para ninguém. Era desarmado sem grande dificuldade.
O Barcelona tentou ir para o ataque, talvez com a cabeça na temporada passada, quando apesar de todo o favoritismo, perdeu para a Roma por 3 a 0 fora de casa e acabou eliminado nas quartas de final.
Em uma situação dessas, com o placar necessário para levar a decisão para os pênaltis, seria normal que o Liverpool tirasse o pé. Mas não para Jürgen Klopp.
Os ingleses continuaram pressionando e oferecendo o contra-ataque, em uma tática arriscada, mas que acabou sendo premiada.
Faltava Origi colocar seu nome na história do torneio. A zaga do Barcelona ficou parada após conceder escanteio, o lateral Trent-Arnold percebeu que o belga ainda corria por algum motivo. Foi o que lhe deu a ideia de fazer a cobrança rápida e rasteira.
O belga pegou Ter Stegen de surpresa e tocou de primeira para o gol, colocando o Liverpool na final da Champions.
Quando acabou a partida, Klopp correu para a torcida. Abraçou todos os jogadores. Não parava de sorrir.
Na próxima fase, ele desafia sua fama de perder em finais. Pelo Borussia Dortmund, foi derrotado na decisão da Champions de 2013. Já pelo Liverpool, perdeu a final de 2018 e a decisão da Liga Europa de 2016. Mesmo assim, o que ele fez já está na história.
Pela primeira vez, desde 2013, quando o Bayern de Munique derrotou o Dortmund de Klopp, um time espanhol não será campeão europeu.
De forma diferente, o Liverpool, time inglês com mais títulos no torneio (cinco), repetiu 2005, quando foi para o intervalo da final perdendo por 3 a 0 para o Milan. Reagiu nos 45 minutos finais, empatou em 3 a 3 e foi campeão na disputa de pênaltis.
Nas tribunas do estádio de Anfield, Salah assistiu ao jogo com uma camisa em que estava escrito “nunca desista”.
Foi a frase que Jurgen Klopp disse sem parar para seus jogadores na última semana.