SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O fotógrafo Sebastião Salgado, que mora em Paris, não tinha visto o filme nem acompanhado a polêmica em torno de “1964 – Brasil Entre Armas e Livros” quando foi alertado de que uma foto sua ilustra uma cena do documentário. Ao localizar a imagem, feita em Serra Pelada em meados dos anos 1980, viu que ela foi usada sem autorização, em um contexto equivocado. O filme é uma produção independente da gaúcha Brasil Paralelo.
A fotografia de um garimpeiro que segura o cano do fuzil de um policial militar, sob o olhar de dezenas de outros trabalhadores, é parte da série produzida por Salgado no garimpo do Pará, tema de seu novo livro. O lançamento está previsto para julho próximo, coincidindo com a exposição das fotos no Sesc Aenida Paulista, em São Paulo. Salgado não informou se formalizará alguma reclamação.
O fotógrafo esteve em Serra Pelada em 1986, em uma das primeiras reportagens feitas no Brasil depois da ditadura militar (quando viveu exilado na França e chegou a ter o passaporte cassado pelo governo). A imagem não autorizada aparece a 1h22min do filme, quando o narrador descreve a formação da Guerrilha do Araguaia, promovida pelo Partido Comunista do Brasil em 1973 e dizimada pelo Exército em 1975. A foto do garimpo não tem qualquer relação com a guerrilha.
Dez minutos depois, outro erro: uma foto do general Augusto Pinochet, ditador, ao lado de Gustavo Leigh e José Toribio Merino, três dos líderes do golpe militar chileno de 1973, é usada para ilustrar o afastamento do general Costa e Silva e a tomada do poder pelos ministros militares brasileiros, no episódio que deu início aos anos mais duros do autoritarismo.
A imagem chilena, da agência de notícias Associated Press, foi feita poucos dias depois do golpe de 1973. Em “1964”, ela foi cortada, eliminando um membro da junta chilena, que aparece na foto original, o general César Mendoza, líder dos “carabineiros”, força que não existe no Brasil (por isso lá a junta tinha quatro membros).
A confusão entre ditaduras talvez possa ser explicada pelo que diz o analista político gaúcho Percival Puggina logo no início do filme: é praticamente impossível quem não viveu a Guerra Fria entender o que aconteceu em março de 1964. A juventude dos produtores talvez tenha tornado impossível a eles distinguir militares chilenos de Augusto Rademaker, Aurélio Lira Tavares e Márcio de Sousa Melo, os comandantes do chamado “golpe dentro do golpe”, em 1969.
Atacado como “pró-ditadura”, o longa documental teve seu lançamento cancelado na rede Cinemark, depois da noite de estreia. Mas no YouTube já foi visto por 5,7 milhões de espectadores em um mês (cerca de 190 mil pessoas por dia). A atitude da rede, chamada de “Cinemarx” pelos defensores do filme, teve o efeito de promover ainda mais a obra, assinada por Filipe Valerim, Henrique Viana e Lucas Ferrugem.
Os três criadores refutam o estigma de favorável ao regime implantando em 1964. Para tanto, citam as diversas referências críticas à censura, à tortura e à supressão das liberdades democráticas no país durante o período, além do uso da palavra “ditadura” para definir o regime.
Procurada no dia 24/4, a assessoria de imprensa da produtora Brasil Paralelo encaminhou a mensagem ao advogado da empresa. Felipe Menegotto Donadel respondeu em 2/5 pedindo informações sobre a posição das imagens no filme. E disse: “A Brasil Paralelo tem enorme respeito com a questão relacionada aos direitos autorais –até porque também sofre muito com isso– por isso aproveito o contato para perguntar se ocorreu alguma reclamação ou encaminhamento formal de uso indevido para que possamos tomar as medidas de ajuste”. Encaminhei mais perguntas e em 3/5  o advogado Donadel informou: “Não conseguiremos enviar as respostas a tempo”.